No Blog do Tico Santa Cruz dei minha opinião ao post que ele fez pra justificar a necessidade de o Rock In Rio ter outras atrações além do Rock. O mesmo ressaltou a importância de outros estilos como o Pop para a manutenção do evento, visto que, segundo as considerações dele, o consumo do Pop é quem paga boa parte das atrações que os próprios roqueiros curtem. Até então seria uma exclamação e um ponto final na tensão, mas as coisas não terminam por aí. Há muito mais envolvendo a questão entre roqueiros e não roqueiros no Rock In Rio. Essa foi, portanto, minha explanação:
"Explanação muito válida, mas acho que devemos pensar do ponto de vista do público roqueiro. Acredito que o Rock In Rio, justamente por ser uma marca, não perde seu caráter alienante. E por si só, o nome do evento sugeriria alguma exclusividade para um determinado gênero. É isso que causa todo o furdunço na cabeça dos roqueiros que querem exclusividades. Talvez por ausência de outros eventos grandes lá fora, talvez pela alienação que a marca insere facilmente na mente, estamos fadados a não ter uma fácil aceitação desse público em relação a outros estilos. É uma questão de comparar duas realidades distintas: o RIR enquanto produto capitalista e o RIR enquanto essência para uma tribo fiel. Essa busca por exclusividade justamente se dá pelo fato de outros gostos musicais diferentes do Rock dominarem o Brasil. Essa tensão entre roqueiros e não-roqueiros é menos visível lá fora porque lá o Rock é um dos gêneros que dominam. Aqui, a tensão é muito maior e criticar outros estilos no RIR é uma forma de autoafirmação.
Entendamos uma coisa: o Rock no Brasil (digo isso enquanto uma instituição social) busca um espaço só seu, assim como os festivais de música sertaneja tornam exclusiva a música sertaneja e os festivais micareteiros se concentram integralmente ao Axé. O Rock In Rio é um evento democrático e devemos elogiar isso, mas se for para sermos democráticos, deveríamos então ter um dia no Carnaval e na festa sertaneja só dedicado ao Rock. O certo é que a mesma crítica ocorreria por parte daqueles públicos em relação ao Rock, que já é comumente taxado nas cidades pequenas como estilo musical de maluco. Portanto, acredito que, considerando o RIR enquanto um produto e não uma essência, falta no Brasil um evento de grande porte realmente voltado para o público Roqueiro. Se já existe eu não conheço, mas é preciso existir pra ajudar na afirmação dessa autoafirmação. Acho até que é isso que falta pra parar com o fato de o rock ser pautado pela MTV ou por rádios Rick-Bonadiarianas.
Sabemos da utopia de um grande festival exclusivamente roqueiro no Brasil. Como dissestes, chega a ser economicamente inviável trazer nossos ídolos em vários dias se formos limitar o consumo da música somente aos roqueiros. Notamos aí uma relação do campo econômico com o campo cultural. Mas fã de rock costuma fechar os olhos pro campo econômico, desejando apenas sua dedicação ao campo cultural. O que quero dizer é que, enquanto campo econômico e cultural não se entrelaçarem de maneira ideal, não teremos esse evento. Isso significa que é preciso haver um maior investimento num rock de qualidade no Brasil através da internet, rádios e TV, para o aumento de consumidores do estilo e, assim, criarmos um público tão grande (mesmo que demore algumas gerações) quando o público consumidor de axé, pagode, forró e sertanejo. Enfim, é isso."
Mantenho, portanto, minha indagação a respeito da necessidade das relações entre campos simbólicos distintos e a consideração dos mesmos para o debate. Apontei uma possível solução, que é muito mais difícil de ser resolvida do que a conscientização dos próprios consumidores do evento, mas menos utópica do que esta.